quarta-feira, 6 de julho de 2011

Como Ser um Grande Escritor, por Charles Bukowski

Como Ser um Grande Escritor, por Charles Bukowski


tens que foder muitas mulheres

mulheres bonitas

e escrever alguns bons poemas de amor.

e não tens que te preocupar com a idade

e/ou novos talentos.

apenas bebe mais cerveja

mais e mais cerveja

e vai às corridas pelo menos uma vez

por semana

e vence

se possível.

aprender a vencer é difícil –

qualquer imbecil pode ser um bom perdedor.

e não te esqueças de Brahams

nem de Bach nem

da cerveja.

não faças exercício a mais.

dorme até ao meio-dia.

evita cartões de crédito

ou pagar seja o que for a

tempo e horas.

lembra-te que não há nenhum cu

no mundo que valha mais de $50

(em 1977).

e se tens a capacidade de amar

ama-te primeiro

mas nunca te esqueças da possibilidade de

derrota total

mesmo que a razão para a derrota

seja justa ou injusta –

sentir cedo o bafo da morte não é

assim tão mau.

afasta-te das igrejas e bares e museus,

e como a aranha sê

paciente –

o tempo é a nossa cruz,

mais o exílio

a derrota

a traição

tudo isso.

sê fiel à cerveja.

uma amante constante.

arranja uma grande máquina-de-escrever

e enquanto ouves os passos para cima e para baixo

lá fora

martela a coisa

martela com força

transforma-a num combate de pesos-pesados

transforma-a no touro na sua primeira investida

e lembra os velhos sacanas

que tão bem lutaram:

Hemingway, Céline, Dostoievsky, Hamsun.

se pensas que eles não enlouqueceram

em pequenos quartos

tal como tu agora

sem mulheres

sem comida

sem esperança

então não estás preparado.

bebe mais cerveja.

há tempo.

e se não houver

está tudo bem

na mesma.

A Biblioteca de Babel, Conto de Jorge Luis Borges

A Biblioteca de Babel, Conto de Jorge Luis Borges


O UNIVERSO (que outros chamam a Biblioteca) compõe-se de um número indefinido, e talvez infinito, de galerias hexagonais, com vastos poços de ventilação no centro, cercados por balaustradas baixíssimas. De qualquer hexágono, vêem-se os andares inferiores e superiores: interminavelmente.

A distribuição das galerias é invariável. Vinte prateleiras, em cinco longas estantes de cada lado, cobrem todos os lados menos dois; sua altura, que é a dos andares, excede apenas a de um bibliotecário normal.

Uma das faces livres dá para um estreito vestíbulo, que desemboca em outra galeria, idêntica à primeira e a todas. À esquerda e à direita do vestíbulo, há dois sanitários minúsculos. Um permite dormir em pé; outro, satisfazer as necessidades físicas. Por aí passa a escada espiral, que se abisma e se eleva ao infinito.

No vestíbulo ha um espelho, que fielmente duplica as aparências. Os homens costumam inferir desse espelho que a Biblioteca não é infinita (se o fosse realmente, para quê essa duplicação ilusória?), prefiro sonhar que as superfícies polidas representam e prometem o infinito…

A luz procede de algumas frutas esféricas que levam o nome de lâmpadas. Há duas em cada hexágono: transversais. A luz que emitem é insuficiente, incessante. Como todos os homens da Biblioteca, viajei na minha juventude; peregrinei em busca de um livro, talvez do catálogo de catálogos; agora que meus olhos quase não podem decifrar o que escrevo, preparo-me para morrer; a poucas léguas do hexágono em que nasci.

Morto, não faltarão mãos piedosas que me joguem pela balaustrada; minha sepultura será o ar insondável; meu corpo cairá demoradamente e se corromperá e dissolverá no vento gerado pela queda, que é infinita. Afirmo que a Biblioteca é interminável.

Os idealistas argúem que as salas hexagonais são uma forma necessária do espaço absoluto ou, pelo menos, de nossa intuição do espaço. Alegam que é inconcebível uma sala triangular ou pentagonal. (os místicos pretendem que o êxtase lhes revele uma câmara circular com um grande livro circular de lombada contínua, que siga toda a volta das paredes; mas seu testemunho é suspeito; suas palavras, obscuras. Esse livro cíclico é Deus). Basta-me, por ora, repetir o preceito clássico: “A Biblioteca é uma esfera cujo centro cabal é qualquer hexágono, cuja circunferência é inacessível”.

A cada um dos muros de cada hexágono correspondem cinco estantes; cada estante encerra trinta e dois livros de formato uniforme; cada livro é de quatrocentas e dez páginas; cada página, de quarenta linhas; cada linha, de umas oitenta letras de cor preta.

Também há letras no dorso de cada livro; essas letras não indicam ou prefiguram o que dirão as páginas. Sei que essa inconexão, certa vez, pareceu misteriosa. Antes de resumir a solução (cuja descoberta, apesar de suas trágicas projeções, é talvez o fato capital da história), quero rememorar alguns axiomas.

O primeiro: a Biblioteca existe ab aeterno. Dessa verdade cujo corolário imediato é a eternidade futura do mundo, nenhuma mente razoável pode duvidar. O homem, o imperfeito bibliotecário, pode ser obra do acaso ou dos demiurgos malévolos; o Universo, com seu elegante provimento de prateleiras, de tomos enigmáticos, de infatigáveis escadas para o viajante e de latrinas para o bibliotecário sentado, somente pode ser obra de um deus.

Para perceber a distância que há entre o divino e o humano, basta comparar esses rudes símbolos trémulos que minha falível mão garatuja na capa de um livro, com as letras orgânicas do interior: pontuais, delicadas, negríssimas, inimitavelmente simétricas.

O segundo: O número de símbolos ortográficos é vinte e cinco[1]. Essa comprovação permitiu, depois de trezentos anos, formular uma teoria geral da Biblioteca e resolver satisfatoriamente o problema que nenhuma conjectura decifrara: a natureza disforme e caótica de quase todos os livros.

Um, que meu pai viu em um hexágono do circuito quinze noventa e quatro, constava das letras M C V perversamente repetidas da primeira linha ate à última. Outro (muito consultado nesta área) é um simples labirinto de letras, mas a página penúltima diz Oh, tempo tuas pirâmides.

Já se sabe: para uma linha razoável com uma correta informação, há léguas de insensatas cacofonias, de confusões verbais e de incoerências. (Sei de uma região montanhosa cujos bibliotecários repudiam o supersticioso e vão costume de procurar sentido nos livros e o equiparam ao de procurá-lo nos sonhos ou nas linhas caóticas da mão… Admitem que os inventores da escrita imitaram os vinte e cinco símbolos naturais, mas sustentam que essa aplicação é casual, e que os livros em si nada significam. Esse ditame, já veremos, não é completamente falaz).

Durante muito tempo, acreditou-se que esses livros impenetráveis correspondiam a línguas pretéritas ou remotas. É verdade que os homens mais antigos, os primeiros bibliotecários, usavam uma linguagem assaz diferente da que falamos agora; é verdade que algumas milhas à direita a língua é dialetal e que noventa andares mais acima é incompreensível.

Tudo isso, repito-o, é verdade, mas quatrocentas e dez páginas de inalteráveis M C V não podem corresponder a nenhum idioma, por dialetal ou rudimentar que seja. Uns insinuaram que cada letra podia influir na subsequente e que o valor de M C V na terceira linha da página 71 não era o que pode ter a mesma série noutra posição de outra página, mas essa vaga tese não prosperou. Outros pensaram em criptografias; universalmente essa conjectura foi aceite, ainda que não no sentido em que a formularam seus inventores.

Há quinhentos anos, o chefe de um hexágono superior[2] deparou com um livro tão confuso quanto os outros, porém que possuía quase duas folhas de linhas homogêneas. Mostrou o seu achado a um decifrador ambulante, que lhe disse que estavam redigidas em português; outros lhe afirmaram que em iídiche. Antes de um século pôde ser estabelecido o idioma: um dialeto samoiedo-lituano do guarani, com inflexões de árabe clássico.

Também decifrou-se o conteúdo: noções de análise combinatória, ilustradas por exemplos de variantes com repetição ilimitada. Esses exemplos permitiram que um bibliotecário de gênio descobrisse a lei fundamental da Biblioteca. Esse pensador observou que todos os livros, por diversos que sejam, constam de elementos iguais: o espaço, o ponto, a vírgula as vinte e duas letras do alfabeto.

Também alegou um fato que todos os viajantes confirmaram: “Não há, na vasta Biblioteca, dois livros idênticos”. Dessas premissas incontrovertíveis deduziu que a Biblioteca é total e que suas prateleiras registram todas as possíveis combinações dos vinte e tantos símbolos ortográficos (numero, ainda que vastíssimo, não infinito), ou seja, tudo o que é dado expressar: em todos os idiomas.

Tudo: a história minuciosa do futuro, as autobiografias dos arcanjos, o catálogo fiel da Biblioteca, milhares e milhares de catálogos falsos, a demonstração da falácia desses catálogos, a demonstração da falácia do catalogo verdadeiro, o evangelho gnóstico de Basilides, o comentário desse evangelho, o comentário do comentário desse evangelho, o relato verídico de tua morte, a versão de cada livro em todas as línguas, as interpolações de cada livro em todos os livros; o tratado que Beda pôde escrever (e não escreveu) sobre a mitologia dos saxões, os livros perdidos de Tácito.

Quando se proclamou que a Biblioteca abarcava todos os livros, a primeira impressão foi de extravagante felicidade. Todos os homens sentiram-se senhores de um tesouro intacto e secreto. Não havia problema pessoal ou mundial cuja eloquente solução não existisse: em algum hexágono. o Universo estava justificado, o Universo bruscamente usurpou as dimensões ilimitadas da esperança.

Naquele tempo falou-se muito das Vindicações: livros de apologia e de profecia, que para sempre vindicavam os actos de cada homem do Universo e guardavam arcanos prodigiosos para seu futuro. Milhares de cobiçosos abandonaram o doce hexágono natal e precipitaram-se escadas acima, premidos pelo vão propósito de encontrar sua Vindicação.

Esses peregrinos disputavam nos corredores estreitos, proferiam obscuras maldições, estrangulavam-se nas escadas divinas, jogavam os livros enganosos no fundo dos túneis, morriam despenhados pelos homens de regiões remotas. Outros enlouqueceram… As Vindicações existem (vi duas que se referem a pessoas do futuro, a pessoas talvez não imaginarias) mas os que procuravam não recordavam que a possibilidade de que um homem encontre a sua, ou alguma pérfida variante da sua, é computável em zero.

Também se esperou então o esclarecimento dos mistérios básicos da humanidade: a origem da Biblioteca e do tempo. É verosímil que esses graves mistérios possam explicar-se em palavras: se não bastar a linguagem dos filósofos, a multiforme Biblioteca produzirá o idioma inaudito que se requer e os vocabulários e gramáticas desse idioma. Faz já quatro séculos que os homens esgotam os hexágonos…

Existem investigadores oficiais, inquisidores. Eu os vi no desempenho de sua função: chegam sempre estafados; falam de uma escada sem degraus que quase os matou; falam de galerias e de escadas com o bibliotecário; ás vezes, pegam o livro mais próximo e o folheiam, á procura de palavras infames. Visivelmente, ninguém espera descobrir nada.

A desmedida esperança, sucedeu, como e natural, uma depressão excessiva. A certeza de que alguma prateleira em algum hexágono encerrava livros preciosos e de que esses livros preciosos eram inacessíveis afigurou-se quase intolerável. Uma seita blasfema sugeriu que cessassem as buscas e que todos os homens misturassem letras e símbolos, até construir, mediante um improvável dom do acaso, esses livros canônicos.

As autoridades viram-se obrigadas a promulgar ordens severas. A seita desapareceu, mas na minha infância vi homens velhos que demoradamente se ocultavam nas latrinas, com alguns discos de metal num fritilo proibido, e debilmente arremedavam a divina desordem.

Outros, inversamente, acreditaram que o primordial era eliminar as obras inúteis. Invadiam os hexágonos, exibiam credenciais nem sempre falsas, folheavam com fastio um volume e condenavam prateleiras inteiras: a seu furor higiênico, ascético, deve-se a insensata perda de milhões de livros. Seu nome é execrado, mas aqueles que deploram os “tesouros” destruídos por seu frenesi negligenciam dois fatos notórios.

Um: a Biblioteca é tão imensa que toda redução de origem humana resulta infinitesimal. Outro: cada exemplar é único, insubstituível, mas (como a Biblioteca é total) há sempre várias centenas de milhares de fac-símiles imperfeitos: de obras que apenas diferem por uma letra ou por uma virgula. Contra a opinião geral, atrevo-me a supor que as consequências das depredações cometidas pelos Purificadores foram exageradas graças ao horror que esses fanáticos provocaram. Urgia-lhes o delírio de conquistar os livros do Hexágono Carmesim: livros de formato menor que os naturais; onipotentes, ilustrados e mágicos.

Também sabemos de outra superstição daquele tempo: a do Homem do Livro. Em alguma estante de algum hexágono (raciocinaram os homens) deve existir um livro que seja a cifra e o compêndio perfeito de todos os demais: algum bibliotecário o consultou e é análogo a um deus.

Na linguagem desta área persistem ainda vestígios do culto desse funcionário remoto. Muitos peregrinaram á procura d’Ele. Durante um século trilharam em vão os mais diversos rumos. Como localizar o venerado hexágono secreto que o hospedava? alguém propôs um método regressivo: Para localizar o livro A, consultar previamente um livro B, que indique o lugar de A; para localizar o livro B, consultar previamente um livro C, e assim até o infinito…

Em aventuras como essas, prodigalizei e consumi meus anos. Não me parece inverosímil que em alguma prateleira do Universo haja um livro total; rogo aos deuses ignorados que um homem – um só, ainda que seja há mil anos! – o tenha examinado e lido. Se a honra e a sabedoria e a felicidade não estão para mim, que sejam para outros. Que o céu exista, embora meu lugar seja o inferno. Que eu seja ultrajado e aniquilado, mas que num instante, num ser, Tua enorme Biblioteca Se justifique.

Afirmam os ímpios que o disparate é normal na Biblioteca e que o razoável (e mesmo a humilde e pura coerência) é quase milagrosa exceção. Falam (eu o sei) de “a Biblioteca febril, cujos fortuitos volumes correm o incessante risco de transformar-se em outros e que tudo afirmam, negam e confundem como uma divindade que delira”.

Essas palavras, que não apenas denunciam a desordem mas que também a exemplificam, provam, evidentemente, seu gosto péssimo e sua desesperada ignorância. De fato, a Biblioteca inclui todas as estruturas verbais, todas as variantes que permitem os vinte e cinco símbolos ortográficos, porém nem um único disparate absoluto. Inútil observar que o melhor volume dos muitos hexágonos que administro intitula-se Trono Penteado, e outro A Cãibra de Gesso e outro Axaxaxas mlö.

Essas proposições, à primeira vista incoerentes, sem dúvida são passíveis de uma justificativa criptográfica ou alegórica; essa justificativa é verbal e, ex hypothesi, já figura na Biblioteca. Não posso combinar certos caracteres

dhcmrlchtdj

que a divina Biblioteca não tenha previsto e que em alguma de suas línguas secretas não contenham um terrível sentido. Ninguém pode articular uma sílaba que não esteja cheia de ternuras e de temores; que não seja em alguma dessas linguagens o nome poderoso de um deus. Falar é incorrer em tautologias.

Esta epístola inútil e palavrosa já existe num dos trinta volumes das cinco prateleiras de um dos incontáveis hexágonos – e também sua refutação. (Um numero n de linguagens possíveis usa o mesmo vocabulário; em alguns, o símbolo biblioteca admite a correta definição ubíquo e perdurável sistema de galerias hexagonais, mas biblioteca é pão ou pirâmide ou qualquer outra coisa, e as sete palavras que a definem tem outro valor. Você, que me lê, tem certeza de entender minha linguagem?)

A escrita metódica distrai-me da presente condição dos homens. A certeza de que tudo está escrito nos anula ou nos fantasmagórica. Conheço distritos em que os jovens se prostram diante dos livros e beijam com barbárie as páginas, mas não sabem decifrar uma única letra.

As epidemias, as discórdias heréticas, as peregrinações que inevitavelmente degeneram em bandoleirismo, dizimaram a população. Acredito ter mencionado os suicídios, cada ano mais frequentes. Talvez me enganem a velhice e o temor, mas suspeito que a espécie humana – a única – está por extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta.

Acabo de escrever infinita. Não interpolei esse adjetivo por costume retórico; digo que não é ilógico pensar que o mundo é infinito. Aqueles que o julgam limitado postulam que em lugares remotos os corredores e escadas e hexágonos podem inconcebivelmente cessar – o que é absurdo. Aqueles que o imaginam sem limites esquecem que os abrange o número possível de livros.

Atrevo-me a insinuar esta solução do antigo problema: A Biblioteca é ilimitada e periódica. Se um eterno viajante a atravessasse em qualquer direção, comprovaria ao fim dos séculos que os mesmos volumes se repetem na mesma desordem (que, reiterada, seria uma ordem: a Ordem). Minha solidão alegra-se com essa elegante esperança.

[1] expressão popular para resplendor.

[2] Mesmo que gupiara, depósito de diamantes.

Teus Olhos, por Octavio Paz

Teus Olhos, por Octavio Paz

"Teus olhos são a pátria do relâmpago e da lágrima,

silêncio que fala,

tempestades sem vento, mar sem ondas,

pássaros presos, douradas feras adormecidas,

topázios ímpios como a verdade,

outono numa clareira de bosque onde a luz canta no ombro

duma árvore e são pássaros todas as folhas,

praia que a manhã encontra constelada de olhos,

cesta de frutos de fogo,

mentira que alimenta,

espelhos deste mundo, portas do além,

pulsação tranquila do mar ao meio-dia,

universo que estremece,

paisagem solitária."

O poeta pede a seu amor que lhe escreva, por Federico Garcia Lorca

O poeta pede a seu amor que lhe escreva, por Federico Garcia Lorca


Amor de minhas entranhas, morte viva,

em vão espero tua palavra escrita

e penso, com a flor que se murcha,

que se vivo sem mim quero perder-te.

O ar é imortal. A pedra inerte

nem conhece a sombra nem a evita.

Coração interior não necessita

o mel gelado que a lua verte.

Porém eu te sofri. Rasguei-me as veias,

tigre e pomba, sobre tua cintura

em duelo de mordiscos e açucenas.

Enche, pois, de palavras minha loucura

ou deixa-me viver em minha serena

noite da alma para sempre escura.

Antologia Poética de Bertolt Brecht

Antologia Poética de Bertolt Brecht


A Cruz de Giz

Eu sou uma criada. Eu tive um romance

Com um homem que era da SA.

Um dia, antes de ir

Ele me mostrou, sorrindo, como fazem

Para pegar os insatisfeitos.

Com um giz tirado do bolso do casaco

Ele fez uma pequena cruz na palma da mão.

Ele contou que assim, e vestido à paisana

anda pelas repartições do trabalho

Onde os empregados fazem fila e xingam

E xinga junto com eles, e fazendo isso

Em sinal de aprovação e solidariedade

Dá um tapinha nas costas do homem que xinga

E este, marcado com a cruz branca

ë apanhado pela SA. Nós rimos com isso.

Andei com ele um ano, então descobri

Que ele havia retirado dinheiro

Da minha caderneta de poupança.

Havia dito que a guardaria para mim

Pois os tempos eram incertos.

Quando lhe tomei satisfações, ele jurou

Que suas intenções eram honestas. Dizendo isso

Pôs a mão em meu ombro para me acalmar.

Eu corri, aterrorizada. Em casa

Olhei minhas costas no espelho, para ver

Se não havia uma cruz branca.

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A Exceção e a Regra

Estranhem o que não for estranho.

Tomem por inexplicável o habitual.

Sintam-se perplexos ante o cotidiano.

Tratem de achar um remédio para o abuso

Mas não se esqueçam de que o abuso é sempre a regra.

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A Fumaça

A pequena casa entre árvores no lago.

Do telhado sobe fumaça

Sem ela

Quão tristes seriam

Casa, árvores e lago.

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A Máscara Do Mal

Em minha parede há uma escultura de madeira japonesa

Máscara de um demônio mau, coberta de esmalte dourado.

Compreensivo observo

As veias dilatadas da fronte, indicando

Como é cansativo ser mal

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A Minha Mãe

Quando ela acabou, foi colocada na terra

Flores nascem, borboletas esvoejam por cima...

Ela, leve, não fez pressão sobre a terra

Quanta dor foi preciso para que ficasse tão leve!

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Acredite Apenas

Acredite apenas no que seus olhos vêem e seus ouvidos

Ouvem!

Também não acredite no que seus olhos vêem e seus

Ouvidos ouvem!

Saiba também que não crer algo significa algo crer!

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As Boas Ações

Esmagar sempre o próximo

não acaba por cansar?

Invejar provoca um esforço

que inchas as veias da fronte.

A mão que se estende naturalmente

dá e recebe com a mesma facilidade.

Mas a mão que agarra com avidez

rapidamente endurece.

Ah! que delicioso é dar!

Ser generoso que bela tentação!

Uma boa palavra brota suavemente

como um suspiro de felicidade!

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Aos que virão depois de nós

I

Eu vivo em tempos sombrios.

Uma linguagem sem malícia é sinal de

estupidez,

uma testa sem rugas é sinal de indiferença.

Aquele que ainda ri é porque ainda não

recebeu a terrível notícia.

Que tempos são esses, quando

falar sobre flores é quase um crime.

Pois significa silenciar sobre tanta injustiça?

Aquele que cruza tranqüilamente a rua

já está então inacessível aos amigos

que se encontram necessitados?

É verdade: eu ainda ganho o bastante para viver.

Mas acreditem: é por acaso. Nado do que eu faço

Dá-me o direito de comer quando eu tenho fome.

Por acaso estou sendo poupado.

(Se a minha sorte me deixa estou perdido!)

Dizem-me: come e bebe!

Fica feliz por teres o que tens!

Mas como é que posso comer e beber,

se a comida que eu como, eu tiro de quem tem fome?

se o copo de água que eu bebo, faz falta a

quem tem sede?

Mas apesar disso, eu continuo comendo e bebendo.

Eu queria ser um sábio.

Nos livros antigos está escrito o que é a sabedoria:

Manter-se afastado dos problemas do mundo

e sem medo passar o tempo que se tem para

viver na terra;

Seguir seu caminho sem violência,

pagar o mal com o bem,

não satisfazer os desejos, mas esquecê-los.

Sabedoria é isso!

Mas eu não consigo agir assim.

É verdade, eu vivo em tempos sombrios!

II

Eu vim para a cidade no tempo da desordem,

quando a fome reinava.

Eu vim para o convívio dos homens no tempo

da revolta

e me revoltei ao lado deles.

Assim se passou o tempo

que me foi dado viver sobre a terra.

Eu comi o meu pão no meio das batalhas,

deitei-me entre os assassinos para dormir,

Fiz amor sem muita atenção

e não tive paciência com a natureza.

Assim se passou o tempo

que me foi dado viver sobre a terra.

III

Vocês, que vão emergir das ondas

em que nós perecemos, pensem,

quando falarem das nossas fraquezas,

nos tempos sombrios

de que vocês tiveram a sorte de escapar.

Nós existíamos através da luta de classes,

mudando mais seguidamente de países que de

sapatos, desesperados!

quando só havia injustiça e não havia revolta.

Nós sabemos:

o ódio contra a baixeza

também endurece os rostos!

A cólera contra a injustiça

faz a voz ficar rouca!

Infelizmente, nós,

que queríamos preparar o caminho para a

amizade,

não pudemos ser, nós mesmos, bons amigos.

Mas vocês, quando chegar o tempo

em que o homem seja amigo do homem,

pensem em nós

com um pouco de compreensão.

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Com Cuidado Examino

Com cuidado examino

Meu plano: ele é

Grande, ele é

Irrealizável.

____________________________________________________________

Como Bem Sei

Como bem sei

Os impuros viajam para o inferno

Através do céu inteiro.

São levados em carruagens transparentes:

Isto embaixo de vocês, lhe dizem

É o céu.

Eu sei que lhes dizem isso

Pois imagino

Que justamente entre eles

Há muitos que não o reconheceriam, pois eles

Precisamente

Imaginavam-no mais radiante

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Da Sedução Dos Anjos

Anjos seduzem-se: nunca ou a matar.

Puxa-o só para dentro de casa e mete-lhe

a língua na boca e os dedos sem frete

Por baixo da saia até se molhar

Vira-o contra a parede, ergue-lhe a saia

E fode-o. Se gemer, algo crispado

Segura-o bem, fá-lo vir-se em dobrado

Para que do choque no fim te não caia.

E as asas, rapaz, não lhas amarrotes. Desde que entre o céu e a terra flutue –

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Das Elegias De Buckow

Viesse um vento

Eu poderia alçar vela.

Faltasse vela

Faria uma de pano e pau.

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De Que Serve A Bondade

1

De que serve a bondade

Se os bons são imediatamente liquidados,ou são liquidados

Aqueles para os quais eles são bons?

Se somente a desrazão consegue o alimento de que todos necessitam? Se os livres têm que viver entre os não-livres?

2

Em vez de serem apenas bons,esforcem-se

Para criar um estado de coisas que torne possível a bondade

Ou melhor:que a torne supérflua!

Um mau negócio. Torne supérfluo!

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Elogio da Dialética

A injustiça passeia pelas ruas com passos seguros.

Os dominadores se estabelecem por dez mil anos.

Só a força os garante.

Tudo ficará como está.

Nenhuma voz se levanta além da voz dos dominadores.

No mercado da exploração se diz em voz alta:

Agora acaba de começar:

E entre os oprimidos muitos dizem:

Não se realizará jamais o que queremos!

O que ainda vive não diga: jamais!

O seguro não é seguro. Como está não ficará.

Quando os dominadores falarem

falarão também os dominados.

Quem se atreve a dizer: jamais?

De quem depende a continuação desse domínio?

De quem depende a sua destruição?

Igualmente de nós.

Os caídos que se levantem!

Os que estão perdidos que lutem!

Quem reconhece a situação como pode calar-se?

Os vencidos de agora serão os vencedores de amanhã.

E o "hoje" nascerá do "jamais".

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Elogio do Revolucionário

Quando aumenta a repressão, muitos desanimam.

Mas a coragem dele aumenta.

Organiza sua luta pelo salário, pelo pão

e pela conquista do poder.

Interroga a propriedade:

De onde vens?

Pergunta a cada idéia:

Serves a quem?

Ali onde todos calam, ele fala

E onde reina a opressão e se acusa o destino,

ele cita os nomes.

À mesa onde ele se senta

se senta a insatisfação.

À comida sabe mal e a sala se torna estreita.

Aonde o vai a revolta

e de onde o expulsam

persiste a agitação.

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Epístola Sobre O Suicídio

Matar-se

É coisa banal.

Pode-se conversar com a lavadeira sobre isso.

Discutir com um amigo os prós e os contras.

Um certo pathos, que atrai

Deve ser evitado.

Embora isto não precise absolutamente ser um dogma.

Mas melhor me parece, porém

Uma pequena mentira como de costume:

Você está cheio de trocar a roupa de cama, ou melhor

Ainda:

Sua mulher foi infiel

(Isto funciona com aqueles que ficam surpresos com

essas coisas

E não é muito impressionante.)

De qualquer modo

Não deve parecer

Que a pessoa dava

Importância demais a si mesmo

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Epitáfio Para Gorki

Aqui jaz

O enviado dos bairros da miséria

O que descreveu os atormentadores do povo

E aqueles que os combateram

O que foi educado nas ruas

O de baixa extração

Que ajudou a abolir o sistema de Alto a Baixo

O mestre do povo

Que aprendeu com o povo.

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Esse Desemprego!

Meus senhores, é mesmo um problema

Esse desemprego!

Com satisfação acolhemos

Toda oportunidade

De discutir a questão.

Quando queiram os senhores! A todo momento!

Pois o desemprego é para o povo

Um enfraquecimento.

Para nós é inexplicável

Tanto desemprego.

Algo realmente lamentável

Que só traz desassossego.

Mas não se deve na verdade

Dizer que é inexplicável

Pois pode ser fatal

Dificilmente nos pode trazer

A confiança das massas

Para nós imprescindível.

É preciso que nos deixem valer

Pois seria mais que temível

Permitir ao caos vencer

Num tempo tão pouco esclarecido!

Algo assim não se pode conceber

Com esse desemprego!

Ou qual a sua opinião?

Só nos pode convir

Esta opinião: o problema

Assim como veio, deve sumir.

Mas a questão é: nosso desemprego

Não será solucionado

Enquanto os senhores não

Ficarem desempregados!

_____________________________________________________________

Eu Sempre Pensei

E eu sempre pensei: as mais simples palavras

Devem bastar.Quando eu disser como e

O coracao de cada um ficara dilacerado.

Que sucumbiras se nao te defenderes

Isso logo veras.

...

Expulso Por Bom Motivo

Eu cresci como filho

De gente abastada. Meus pais

Me colocaram um colarinho, e me educaram

No hábito de ser servido

E me ensinaram a dar ordens. Mas quando

Já crescido, olhei em torno de mim

Não me agradaram as pessoas da minha classe e me juntei

À gente pequena.

Assim

Eles criaram um traidor, ensinaram-lhe

Suas artes, e ele

Denuncia-os ao inimigo.

Sim, eu conto seus segredos. Fico

Entre o povo e explico

Como eles trapaceiam, e digo o que virá, pois

Estou instruído em seus planos.

O latim de seus clérigos corruptos

Traduzo palavra por palavra em linguagem comum,

Então

Ele se revela uma farsa. Tomo

A balança da sua justiça e mostro

Os pesos falsos. E os seus informantes relatam

Que me encontro entre os despossuídos, quando

Tramam a revolta.

Eles me advertiram e me tomaram

O que ganhei com meu trabalho. E quando me corrigi

Eles foram me caçar, mas

Em minha casa

Encontraram apenas escritos que expunham

Suas tramas contra o povo. Então

Enviaram uma ordem de prisão

Acusando-me de ter idéias baixas, isto é

As idéias da gente baixa.

Aonde vou sou marcado

Aos olhos dos possuidores.

Mas os despossuídos

Lêem a ordem de prisão

E me oferecem abrigo. Você, dizem

Foi expulso por bom motivo.

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Ferro

No sonho esta noite

Vi um grande temporal.

Ele atingiui os andaimes

Curvou a viga feita

A de ferro.

Mas o que era de madeira

Dobrou-se e ficou.

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Jamais Te Amei Tanto

Jamais te amei tanto, ma soeur

Como ao te deixar naquele pôr do sol

O bosque me engoliu, o bosque azul, ma soeur

Sobre o qual sempre ficavam as estrelas pálidas

No Oeste.

Eu ri bem pouco, não ri, ma soeur

Eu que brincava ao encontro do destino negro -

Enquanto os rostos atrás de mim lentamente

Iam desaparecendo no anoitecer do bosque azul.

Tudo foi belo nessa tarde única, ma soeur

Jamais igual, antes ou depois -

É verdade que me ficaram apenas os pássaros

Que à noite sentem fome no negro céu.

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Lendo Horácio

Mesmo o diluvio

Não durou eternamente.

Veio o momento em que

As águas negras baixaram.

Sim, mas quão poucos

Sobreviveram!

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Louvor ao Estudo

Estuda o elementar: para aqueles

cuja hora chegou

não é nunca demasiado tarde.

Estuda o abc. Não basta, mas

Estuda. Não te canses.

Começa. Tens de saber tudo.

Estás chamado a ser um dirigente.

Freqüente a escola, desamparado!

Persegue o saber, morto de frio!

Empunha o livro, faminto! É uma arma!

Estás chamado á ser um dirigente.

Não temas perguntar, companheiro!

Não te deixes convencer!

Compreende tudo por ti mesmo.

O que não sabes por ti, não o sabes.

Confere a conta. Tens de pagá-la.

Aponta com teu dedo a cada coisa

e pergunta: "Que é isto? e como é?"

Estás chamado a ser um dirigente.

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Na Guerra Muitas Coisas Crescerão

Ficarão maiores As propriedades dos que possuem

E a miséria dos que não possuem

As falas do guia*

E o silêncio dos guiados.

*Führer

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Na Morte De Um Combatente Da Paz

Á memória de Carl von Ossietzky

Aquele que não cedeu

Foi abatido

O que foi abatido

Não cedeu.

A boca do que preveniu

Está cheia de terra.

A aventura sangrenta

Começa.

O túmulo do amigo da paz

É pisoteado por batalhões.

Então a luta foi em vão?

Quando é abatido o que não lutou só

O inimigo

Ainda não venceu.

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Nada É Impossível De Mudar

nada deve parecer natural nada deve parecer impossível de mudar.

...

Não Necessito De Pedra Tumular

Não necessito de pedra tumular, mas

Se necessitarem de uma para mim

Gostaria que nela estivesse:

Ele fez sugestões

Nos as aceitamos.

Por tal inscrição

Estaríamos todos honrados.

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No Segundo Ano De Minha Fuga

No segundo ano de minha fuga

Li em um jornal, em língua estrangeira

Que eu havia perdido minha cidadania.

Não fiquei triste nem alegre

Ao ver meu nome entre muitos outros

Bons e maus.

A sina dos que fugiam não me pareceu pior

Do que a sina dos que ficavam.

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O Nascido Depois

Eu confesso: eu

Não tenho esperança.

Os cegos falam de uma saída. Eu

Vejo.

Após os erros terem sido usados

Como última companhia, à nossa frente

Senta-se o Nada.

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O Vosso Tanque General, É Um Carro Forte

Derruba uma floresta esmaga cem

Homens,

Mas tem um defeito

- Precisa de um motorista

O vosso bombardeiro, general

É poderoso:

Voa mais depressa que a tempestade

E transporta mais carga que um elefante

Mas tem um defeito

- Precisa de um piloto.

O homem, meu general, é muito útil:

Sabe voar, e sabe matar

Mas tem um defeito

- Sabe pensar

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Os Esperançosos

Pelo que esperam?

Que os surdos se deixem convencer

E que os insaciáveis

Lhes devolvam algo?

Os lobos os alimentarão, em vez de devorá-los!

Por amizade

Os tigres convidarão

A lhes arrancarem os dentes!

É por isso que esperam!

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Os que lutam

"Há aqueles que lutam um dia; e por isso são muito bons;

Há aqueles que lutam muitos dias; e por isso são muito bons;

Há aqueles que lutam anos; e são melhores ainda;

Porém há aqueles que lutam toda a vida; esses são os imprescindíveis."

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Os maus e os bons

"Os maus temem tuas garras

Os bons se alegram de tua graca.

Algo assim Gostaria de ouvir

Do meu verso."
...

Para Ler De Manhã E À Noite

Aquele que amo

Disse-me

Que precisa de mim.

Por isso

Cuido de mim

Olho meu caminho

E receio ser morta

Por uma só gota de chuva.

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Perguntas De Um Operário Que Lê.

Quem construiu Tebas, a das sete portas?

Nos livros vem o nome dos reis,

Mas foram os reis que transportaram as pedras?

Babilònia, tantas vezes destruida,

Quem outras tantas a reconstruiu? Em que casas

Da Lima Dourada moravam seus obreiros?

No dia em que ficou pronta a Muralha da China para onde

Foram os seus pedreiros? A grande Roma

Está cheia de arcos de triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem

Triunfaram os Césares? A tão cantada Bizâncio

Sò tinha palácios

Para os seus habitantes? Até a legendária Atlântida

Na noite em que o mar a engoliu

Viu afogados gritar por seus escravos.

O jovem Alexandre conquistou as Indias

Sòzinho?

César venceu os gauleses.

Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?

Quando a sua armada se afundou Filipe de Espanha

Chorou. E ninguém mais?

Frederico II ganhou a guerra dos sete anos

Quem mais a ganhou?

Em cada página uma vitòria.

Quem cozinhava os festins?

Em cada década um grande homem.

Quem pagava as despesas?

Tantas histórias

Quantas perguntas

Talvez, por Pablo Neruda

Talvez, por Pablo Neruda


Talvez não ser,

é ser sem que tu sejas,

sem que vás cortando

o meio dia com uma

flor azul,

sem que caminhes mais tarde

pela névoa e pelos tijolos,

sem essa luz que levas na mão

que, talvez, outros não verão dourada,

que talvez ninguém

soube que crescia

como a origem vermelha da rosa,

sem que sejas, enfim,

sem que viesses brusca, incitante

conhecer a minha vida,

rajada de roseira,

trigo do vento,

E desde então, sou porque tu és

E desde então és

sou e somos...

E por amor

Serei... Serás...Seremos...

Soneto a Neruda, por Vinicius de Moraes

Soneto a Neruda, por Vinicius de Moraes


Quantos caminhos não fizemos juntos

Neruda, meu irmão, meu companheiro...

Mas este encontro súbito, entre muitos

Não foi ele o mais belo e verdadeiro?

Canto maior, canto menor - dois cantos

Fazem-se agora ouvir sob o cruzeiro

E em seu recesso as cóleras e os prantos

Do homem chileno e do homem brasileiro

E o seu amor - o amor que hoje encontramos...

Por isso, ao se tocarem nossos ramos

Celebro-te ainda além, Canto Geral

Porque como eu, bicho pesado, voas

Mas mais alto e melhor do céu entoas

Teu furioso canto material!